Catolicismo Nº 112 - Abril de 1960
Como
pôde o mundo odiar Aquele que passou fazendo o bem?
"Popule meus, quid feci tibi? Aut in quo
contristavi te?" - "Ó meu povo, que mal te fiz Eu, ou no que
te contristei?" - Estas palavras, que a liturgia da Sexta-Feira Santa põe
nos lábios de Nosso Senhor, estão bem no centro do tema que acabamos de
enunciar.

Este problema é quase
tão velho como a humanidade. Por que Caim odiou Abel? Por que os judeus
perseguiram e não raro mataram os profetas? Por que os romanos perseguiram os
cristãos?
Mais recentemente,
porque foi difundido pelos protestantes tanto sangue de mártires, porque fez o
mesmo a Revolução Francesa, ou a Revolução bolchevista na Rússia? Em nossos
dias, como explicar o ódio dos comunistas na guerra civil espanhola, nas
perseguições do México, da Hungria e da Iugoslávia? A terra ainda chora a morte
do Cardeal Stepinac. Pergunta-se: porque foi ele tão odiado?
Bem sabemos que,
formuladas assim, tais perguntas parecerão a muitos um tanto simplistas. O ódio
dos inimigos da Igreja nem sempre foi gratuito. Não faltaram, por vezes, também
da parte dos católicos, provocações e excessos que geraram reações. De outro
lado, houve, em certo número de casos, equívocos, mal-entendidos e incompreensões
que deram lugar a violências. Houve então mártires, não porque a Igreja fosse
devidamente conhecida e sem embargo odiada como tal, mas precisamente porque
ela era desconhecida ou desfigurada indevidamente.
Não negamos nada disto.
Mas reduzir a estas causas o ódio das trevas contra a Luz, do mal contra o Bem,
isto sim é singularmente simplificar o problema.
É o que na Paixão se
evidencia com clareza meridiana.
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Notemos preliminarmente
que, se os católicos podem ter falhas, Nosso Senhor não as teve. Quer quanto ao
fundo e à forma de sua pregação, quer quanto ao tato e à oportunidade com que
ensinava, quer ainda quanto ao caráter edificante de seus exemplos, ao valor
apologético de seus milagres, e ao aspecto santíssimo e empolgante de sua
Pessoa, não podia haver dúvida. Ele não deu pretexto a nenhuma objeção
legítima, a nenhuma queixa sólida.
Pelo contrário, só deu
ocasiões a que O adorassem e O seguissem. Entretanto, também Ele foi odiado,
mais odiado até do que seus fiéis ao longo dos séculos. Como explicar isto? É
que nos filhos das trevas há um ódio que se volta precisamente contra a Verdade
e o Bem.
É pois inútil querer
atribuir tudo a um mero jogo de equívocos. Estes têm existido. Mas não resolvem
o problema.
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Mas há almas que vão
mais longe. Movidas pela sensualidade, pelo orgulho, por outro vício qualquer,
levam a malícia tão longe, de tal maneira se identificam com o pecado, que
chegam a só se sentir bem onde se lisonjeiam seus maus hábitos, e a não
suportar nada que constitua censura ou até mero desacordo em relação a eles.
Daí um ódio aos bons e ao Bem, aos paladinos da verdade e à mesma Verdade, que
lhes dá como que um ideal negativo. Voltaire o exprimiu muito bem em seu lema
"écraser l'infâme" ( esmagar
o "infame", isto é, ao Verbo Encarnado! ). Fazer disto um
anelo de todos os momentos, o "ideal" de uma vida, eis o que é a
quintessência da impiedade. Gente assim tem todos os requisitos para planejar,
urdir e executar a perseguição. Se em Israel não houvesse gente assim, Nosso
Senhor não teria sido crucificado.
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Deus não nega sua graça
a ninguém. Ímpios destes também podem converter-se, e de todo o coração.
Contudo, cumpre acrescentar que, enquanto não o fazem, já têm nesta terra a
mais importante característica dos condenados ao inferno.
Realmente, pensa-se em
geral que os precitos, se pudessem, fugiriam todos para o Céu. Não é verdade.
Eles têm tanto ódio a Deus que, ainda que pudessem livrar-se do fogo eterno no
qual estão presos, não o fariam se tivessem para isto que prestar a Deus ato de
amor e obediência.
É tal a força deste
ódio. E é à luz disto que se compreende bem o que chamaríamos de ímpio de
segundo grau.
Foi esta impiedade
requintada a força motriz que animou a Sinagoga na revolta contra o Messias.
Foi ela que moveu a luta dos ímpios contra a Igreja, contra os bons católicos,
no decurso dos séculos.
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Senhor,
nesta hora de misericórdia em que consideramos vosso Corpo sacrossanto a verter
por todos os lados vosso Sangue redentor, pedimos-Vos, pelos méritos infinitos
desse mesmo Sangue preciosíssimo e pelas lágrimas de vossa e nossa Mãe, nos
mantenhais muito e muito longe de qualquer impiedade: "não permitais que
nos separemos de Vós", de todo o coração Vo-lo imploramos.
Por
toda parte onde ímpios perseguem filhos da luz, e muito especialmente na Igreja
do Silêncio, sede a força dos perseguidos, não só para que não desfaleçam, como
para que se levantem, se articulem, e esmaguem vosso adversário. Pelo Imaculado
Coração de Maria Vo-lo rogamos.
E
já que à última hora ainda prometestes o Paraíso a um celerado, Senhor, pelos
méritos de vossa agonia Vos suplicamos, em união com Maria, que vossa
misericórdia desça até os antros ocultos da impiedade, a fim de convidar para
as vias da virtude até vossos piores adversários.
E
ainda por misericórdia, Senhor, confundi, humilhai e reduzi à inteira
impotência os que, recusando os mais extremos apelos de vosso amor, persistem
em trabalhar para destruir a civilização cristã e até – como se possível fosse
– vossa Esposa mística, a Santa Igreja.
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