Plinio Corrêa de Oliveira:
grandes exemplos
em meio a acirrada luta
Leo Daniele
Já se tem escrito sobre a épica pugna de Plinio Corrêa de
Oliveira, e também sobre sua brilhante, inspirada e abarcativa obra
intelectual, em que sobressaem “Revolução e Contra-Revolução” e “Nobreza e
Elites Análogas nas Alocuções de Pio XII”, traduzidas para muitas línguas,
publicadas em muito países, além de muitas outras obras.
Mas neste artigo tentarei dizer algo sobre seus exemplos
pois, como diz a doutrina católica e ele mesmo ressaltava, o exemplo prevalece
sobre o ensinamento.[1]
E seus bons exemplos foram públicos e notórios. Em primeiro
lugar, ele foi um homem de sociedade, muito fino, muito dotado, rico de
inúmeras qualidades que, para servir a Igreja, deu as costas a uma carreira que
poderia ser fulgurante.
Disse certa vez um homem de posição, vendo-o, num
restaurante, conversar com alguns jovens: “Você, na sua idade, sendo quem é,
com os meios intelectuais que tem, você já poderia ser Governador de Estado,
poderia daqui a pouco ser Ministro de Estado, e até, de futuro, Presidente da
República. Em vez disto, você está aqui conversando com esta meninada e
perdendo seu tempo, enterrando sua vida e fracassando”. Por essas palavras é
possível ver claramente, em palavras não isentas de aversão e talvez de inveja,
quão brilhante poderia ter sido a carreira a que Dr. Plinio renunciou. Tudo por
amor à Igreja.
Passaram-se alguns anos desta cena, e em 1975 Dr. Plinio
sofreu um terrível desastre de automóvel. Pouco antes, ele conversava com seus
amigos. Estava com determinada intenção em mente, e recorda: “eu ofereci a Ela
(Nossa Senhora) que fizesse acontecer qualquer coisa comigo que me fizesse
sofrer muito”. Dois dias depois, veio a tragédia e durante seus últimos 20 anos
de vida, ele teve de conformar-se a usar uma cadeira de rodas e sofrer os inúmeros incômodos
decorrentes, com paciência exemplar.
Seria um não acabar nunca relatar fatos de sua vida que
foram modelares, mas o espaço é curto. Sem pretender ser completo, enumero
algumas de suas qualidades típicas. É quase impossível não começar por sua Seriedade.
Para ele, Seriedade não queria dizer sisudez. Com a grande
imponência de porte que lhe era natural, ele sabia aliar essa virtude a certa
jovialidade, para entreter os outros e colocá-los à vontade.
Para ele, Seriedade era sobretudo, “ver, ver de frente, ver
por inteiro”. “O primeiro elemento da Seriedade é uma inteira objetividade: ver
a realidade inteiramente como ela é, sem véus nem preconceitos, nem torcidas,
nem adaptações”.[2]
Detestava aquilo que os de língua inglesa criticam com a
expressão “wishfull thinking”, ou seja, pensar de acordo com seus desejos, o
que é uma disfarçada falta de Seriedade. Se havia alguma má notícia, queria que
lhe fosse dada logo, sem os tão frequentes eufemismos ou atenuações.
Seriedade para ele era sobretudo pensar no sublime. Tive
certa vez um despacho com Dr. Plinio, especialmente complicado devido aos
assuntos em pauta. Quando terminou, disse-lhe que admirava muito a distância
que ele tomava em relação aos assuntos concretos, e perguntei como, depois de
um despacho árido como esse do qual eu saía quase arrasado, ele conseguia
portar-se como se nada houvesse acontecido, apreciar uma coisa bonita e fazer
comentários maravilhosos.
Ele respondeu: Conseguir, esse é o erro! Você não devia
perguntar como eu consigo, porque não é uma questão de conseguir! Mas sim,
quais são os panoramas tão altos, tão maravilhosos que eu vejo continuamente,
que fazem com que esses problemas árduos não me apoquentem!’

Ensinava ele: “Inocente é o homem de todas as idades que
adere àquele estado de espírito primevo de equilíbrio e de temperança em que
foi criado, e por isso conserva-se aberto a todas as formas de retidão, de
maravilhoso”.[3]
O conceito pliniano de Inocência, portanto, vai muito além
da idade e da acepção corrente da palavra. Não se trata apenas de não praticar
o mal, mas sobretudo de aderir fortemente à harmonia do Verdadeiro, do Bom e do
Belo.
A calma é parte integrante da Inocência. « Pode-se estar
numa situação em que seja quase inevitável a sensibilidade efervescer. Mas a
efervescência é reduzida, pelo império da vontade, estritamente a seus
primeiros borbulhares”.[4] Além disso, nunca deve passar.
Afirma ele: “Sustento que a partir da Inocência primeira o
senso psicológico é mais agudo, e se embota com o tempo. Mas, por outro lado,
há uma lucidez infantil que a maturidade pode levar depois à plenitude”.[5]
Embora a Inocência possa existir em todas as idades, é quase
impossível falar de Inocência sem falar no menino Plinio. Ele dizia:
“Como é bela a juventude! Tenho saudades da minha Inocência.
Daquela candura de alma, daquele frescor! Não quero morrer sem ter readquirido
as qualidades de minha infância, de maneira que quando me apresente diante de
Nossa Senhora eu possa dizer:
Minha Mãe, minha vida inteira está posta em Vossas Mãos”.[6]
Mas o espírito verdadeiramente inocente não é ingênuo e não
se deixa levar pelas aparências. As sirenes de alarme de sua alma são sensíveis,
e disparam com acerto e na hora certa. Se alguém tiver verdadeira Inocência,
será muito difícil enganá-lo.
Falar sobre Dr. Plinio é quase sempre discorrer sobre
contrastes harmônicos. Não é difícil ver, examinando os fatos de sua vida, que
sua “intransigência inexorável” ‒ como dizia ele ‒ se harmonizava com uma Filialidade exímia
e muito amorosa, que se aplicava a três pontos de atenção: Nossa Senhora, a
Santa Igreja e, como é natural, Dona Lucilia sua mãe.
Ele tinha exímia
Filialidade em primeiro lugar em relação a Nossa Senhora. Falava continuamente
e em termos elevadíssimos dEla. Tinha mesmo o propósito de, em todas as
conferências e palestras tão frequentes em sua vida, sempre dizer alguma coisa
de Maria Santíssima, o que fazia sem falhar nunca.
Outro aspecto da
mesma qualidade era a Filialidade para com à Igreja. Certa vez, devendo fazer
graves objeções a alguns dignitários eclesiásticos, ele o fez colocando no
início do texto a frase “anima nostra sicut terra sine aqua tibi” (nossa alma
está para Vós como a terra árida para a água),[7] uma expressão muito filial,
usada na hora da firmeza. E fez a crítica. Na famosa e enérgica Declaração de
Resistência, face a afirmações de Mons. Casaroli em relação ao regime comunista
cubano, ele escreveu a Paulo VI: “Neste ato filial, dizemos ao Pastor dos
Pastores: Nossa alma é Vossa, nossa vida é Vossa. Mandai-nos o que quiserdes.
Só não nos mandeis que cruzemos os braços diante do lobo vermelho que investe.
A isto nossa consciência se opõe”. É impossível ser mais filial, na censura
inexorável.
As relações dele
com sua extremosa mãe mereceriam um capítulo a parte, tão expressivas eram. Ele
descreve Da. Lucilia como “a dignidade sem fortuna, a doçura sem covardia, a
intransigência sem hirtez, a nobreza sem arrogância”. Mas mesmo tendo tão
extraordinária mãe, nunca se deixou levar por nenhum sentimentalismo, pois
conhecia muito bem o caminho de seu dever. E também nisto sempre foi um modelo.
Esses três objetos de sua Filialidade, aqui mencionados ‒ Nossa Senhora, a Igreja e sua
própria mãe ‒ se
fundiam em uma única virtude, e tinham como corolário uma notável Paternalidade
com os de seu Grupo, especialmente os que mais precisassem de sua proteção.
A Filialidade dirigida a requintados objetos é uma qualidade
muito importante, mas da qual pouco se fala.[8] Em se tratando do guerreiro
admirável que foi Dr. Plinio, forma o arco de contrastes harmônicos que procuro
pôr em foco nessas rápidas linhas.
Aqui ficam, pois, no dia de seu centésimo quarto aniversário
algumas considerações resumidas, mas afetuosas, sobre três das virtudes
características suas: a Seriedade, a Inocência e a Filialidade.
DISPONIVEL EM :http://ipco.org.br/home/noticias/plinio-correa-de-oliveira-grandes-exemplos-em-meio-a-acirrada-luta
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